Foi andando pelo corredor estreito até o banheiro nos fundos. Era estúpido. Entrou fechando a porta atrás de si com um pano encharcado nas mãos, olhou para o pequeno espelho. Sim, era estúpido, mas era o único jeito. Jogou o pano na privada e deu descarga.
- JULIANA!
- Sim?
- Posso saber o que o pano de chão está fazendo entalado no banheiro?
- Ah, eu queria lavar o pano mas não tinha nenhum balde, aí eu achei que jogando na privada...
- QUÊ?
- É que não tinha onde, sabe, e os clientes estavam reclamando que o chão estava grudando...
Ele, que esfregava a mão violentamente contra o rosto, parou de pronto e a espiou pelo pequeno espaço pelos dedos. Ela olhava inocentemente. Ele respirou fundo. Olhou o teto, a tv, o chão, o teto, a parede, o relógio, o chão. Olhou pra ela. Ela olhava inocentemente. Respirou fundo.
- Juliana, nós dois sabemos que você não é um poço de esperteza, mas cá entre nós: você tá falando sério? Não pode estar falando sério — perdeu o olhar imaginando a cena —, é sério mesmo?
A garota com cara de paisagem o olhou como se ele tivesse dado descarga num pano de chão; girou os olhos com ar de desprezo, olhou pra cima, olhou pra baixo, cruzou os braços:
- Não.
- Não o quê?
- É claro que eu não quis dar descarga naquele pano de chão fedorento, você acha que eu sou uma imbecil ou o quê?
Silêncio.
- Eu nunca quis trabalhar, sabe?, a garota puxou a cadeira e se sentou, como estivesse prestes a contar uma longa história, - mas meu pai sempre quis que eu trabalhasse... Eu não queria! Na minha situação, eu só poderia ser demitida se fizesse algo errado, entende?
- Não, não entendo!
- Quer que eu explique de novo?
- Por que você não, não...? - O homem pensava nos lugares que poderia sugerir à garota pra colocar o trapo de chão. Melhor não. - ...não pediu demissão, cacete? Precisava entupir a minha privada?
- É...
O homem ficou tão vermelho e inchado que a garota pensou que ele fosse ter um AVC. Vendo-se sozinha com o patrão ficou com medo de uma ofensiva, e foi saindo de fininho. Já na porta do estabelecimento, a garota virou se e declarou num ar de compaixão:
- Não fica bravo não, viu? Não é nada pessoal.. São só.. Negócios.
O patrão nem olhou. Só conseguia pensar nos negócios que ficariam entalados na privada até o encanador chegar, em como se explicaria para o encanador, em como era pequena a possibilidade de encontrar uma pessoa tão desajustada mentalmente pra trabalhar com ele na pilha de currículos que ele havia analisado. Precisava de férias.
(Inspirado em fatos reais)